Autismo não é raro

O Autismo desde o Inicio

 

         Em 1943, Leo Kanner chamou a atenção pela primeira vez para um grupo de crianças que apresentava isolamento social, alterações da fala e necessidade extrema de manutenção da rotina. A este conjunto de sintomas Kanner denominou autismo.

         Nas décadas seguintes o autismo se fortaleceu como uma entidade diagnóstica e passou a ser estudado por muitos pesquisadores.

         Inicialmente foi valorizada a hipótese de que o autismo era causado por fatores psicológicos e de que os pais eram responsáveis pelo surgimento deste quadro por apresentarem um comportamento frio e obsessivo com os seus filhos. Com o passar do tempo, essa hipótese foi posta de lado pela literatura médica e atualmente se considera o autismo como uma desordem neurobiológica, apesar de o mecanismo preciso da doença ainda não ser conhecido.

         Em termos clínicos, os sintomas podem estar presentes desde o nascimento (70% dos casos) ou surgirem em algum momento antes dos três anos de idade em uma criança que teve o desenvolvimento aparentemente normal (30% dos casos). A criança apresenta‑se desligada do meio e não responde ao chamado do seu nome. Não retribui um sorriso e faz pouco contato com o olhar. É capaz de ficar muito tempo sozinha e só procura os outros para satisfazer suas necessidades.

         O atraso da fala, com freqüência, é a queixa principal. Observa‑se, porém, que há uma dificuldade na comunicação em geral (e não só na fala). A criança não utiliza gestos para compensar a falta da fala. Não dá “tchau” e não aponta para o que quer.

         Marcante, também, é a necessidade de manutenção da rotina. O autista demonstra grande desconforto diante de mudanças no dia‑a‑dia, como, por exemplo, a troca de lugar de algum objeto da casa. Faz questão de andar sempre do mesmo lado da rua ou pegar sempre o mesmo ônibus. A quebra desta rotina pode desencadear um comportamento agitado que leva a criança a se recusar a ir em frente enquanto não se retorna o padrão antigo. Com freqüência, apresenta interesses e manias pouco comuns. Mostra grande atração por objetos que rodam e escolhe como “brinquedo preferido” coisas incomuns como barbantes ou caixas de papelão. Manipula esses objetos de forma extremamente repetitiva, a assim pode permanecer por horas. O brincar muitas vezes se mostra rígido a repetitivo: alinhando os objetos ou colocando e retirando algo de uma caixinha. Pode passar horas decorando mapas e listas telefônicas. Estas características foram muito bem mostradas no filme Rain Man, no qual o ator Dustin Hofman interpreta um autista já adulto. Aproximadamente 10% dos autistas apresentam alguma habilidade especial, seja para memorizar, desenhar ou tocar um instrumento.

         Outro sintoma de grande impacto na vida dos portadores de autismo é a hipersensibilidade sensorial. Vários autistas descrevem o quanto os sons doem nos seus ouvidos ou o quanto um leve cutucar no seu corpo pode ser desconfortável. Alguns referem que alguns tecidos trazem profundo incomodo. É freqüente também não conseguirem processar diferentes estímulos sensoriais ao mesmo tempo. Com isto, se estiverem muito atentos em algum estímulo visual, não conseguirão ouvir uma música ou alguém falar algo.

         Já a memória visual costuma ser um ponto forte nas pessoas portadoras de autismo. Mesmo as crianças muito pequenas memorizam caminhos, organização espacial dos objetos na casa e relatam que conseguem memorizar filmes inteiros (e que em alguns momentos eles ficam “passando” na cabeça).

          Para completar o quadro, a criança com autismo freqüentemente apresenta movimentos corporais repetitivos (estereotipados), como, por exemplo, um balanço do tronco para frente e para trás, pular sacudindo as mãos, um movimento de “bater asas” ou de balançar as mãos.

 

Diagnostico de Autismo

 

         O diagnóstico de autismo se baseia somente em dados clínicos (história e observação do comportamento). Não existe exame complementar capaz de comprovar este diagnóstico. Os exames complementares permitem apenas investigar a presença de doenças que sabidamente estão associadas com autismo, como, por exemplo, síndrome de rubéola congênita, síndrome de Down, síndrome de West, esclerose tuberosa, síndrome do X‑frágil, entre outras. Em 70% dos casos, no entanto, não se encontra qualquer doença associada, e os exames complementares (radiológicos, metabólicos ou genéticos) são inteiramente normais.

         Admite‑se hoje que existem diferentes graus de autismo. No autismo leve (Desordem de Asperger) os sintomas relacionados com a dificuldade de comunicação, socialização e as “manias” estão presentes, porém de forma branda. A criança adquire fala a se alfabetiza. Algumas conseguem frequentar uma escola regular, podendo, inclusive, concluir um curso universitário. Porém, apresenta dificuldade para compreender situações sociais mais complexas (como por exemplo, o jogo de sedução), dificuldade para compreender  ironias, metáforas e piadas. Com isto, demonstram ser ingênuos para a faixa etária e muitas vezes se comportam de maneira inapropriada em determinada situação sem se dar conta.

         No autismo severo, a criança dificilmente adquire linguagem. Tende a manter o isolamento social e, com freqüência, apresenta intensa estereotipia motora e automutilação.

         É, portanto, fundamental considerar o autismo como uma síndrome comportamental na qual se encontra um leque de gravidade que possui em um extremo quadros severos (autismo não verbal) e no outro quadros leves (como a desordem de Asperger ou de transtorno Invasivo não especificado). Entre esses dois extremos são encontrados os graus intermediários de autismo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         Apesar, porem, de todo o esforço no sentido de aprimorar os critérios diagnósticos, o grupo formado a partir destes critérios ainda é extremamente heterogêneo. Existem crianças que falam frases e crianças que não falam nenhuma palavra. Existem crianças que aprenderam sozinhas a ler com três anos e outras que nunca vão aprender. Existem crianças com desenvolvimento motor normal e outras que só andaram com quatro anos.

         Existem crianças com alguma deficiência associada (surdez ou cegueira, por exemplo) a outras sem nenhuma. Existem crianças com diferentes doenças associadas a outras sem qualquer patologia concomitante.

         Admite‑se hoje que existem diferentes graus de autismo. No autismo leve os sintomas relacionados com a dificuldade de comunicação, socialização e as “manias” estão presentes, porem de forma branda. A criança adquire fala a se alfabetiza. Algumas conseguem freqüentar uma escola regular, podendo, inclusive, concluir um curso universitário.

         No autismo severo, a criança dificilmente adquire linguagem. Tende a manter o isolamento social e, com freqüência, apresenta intensa estereotipia motora e automutilação.

         É, portanto, fundamental considerar o autismo como uma síndrome comportamental na qual se encontra um leque de gravidade que possui em um extremo quadros severos e no outro quadros leves. Entre esses dois extremos são encontrados os graus intermediários de autismo.

 

         Levando em conta os diversos graus de gravidade, o Autism Society of America considera hoje que 1 em cada 150 nascidos seja portador de autismo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Tratamento do Autismo

 

         Apesar de não haver um tratamento curativo para o autismo, sabe‑se hoje que algumas técnicas comportamentais e educacionais trazem algum beneficio quando iniciadas precocemente. O ideal e que tais intervenções sejam iniciadas antes dos quatro anos de idade.

         Atualmente, considera‑se fundamental que a criança com autismo viva em um ambiente estruturado, no qual as regras devem ser claras a constantes. A criança precisa saber o que se espera dela.

         Igualmente importante a reduzir o número de fatores inesperados no dia‑a‑dia da criança. O imprevisível muitas vezes é a causa de um ataque de birra. A criança deve ser preparada para modificações na sua rotina.

         Freqüentemente, a criança com autismo tem mais facilidade para compreender as informações apresentadas visualmente do que as apresentadas verbalmente. O ideal é colocar na parede um quadro com o esquema das atividades do dia e utilizar fotos ou desenhos que demonstrar a ordem em que as coisas devem acontecer. Por exemplo, a primeira foto mostra a mesa do café da manhã, a segunda foto a escova de dente, a terceira foto a piscina onde a criança fará natação, a assim por diante. Entre cada atividade, a criança deve ser levada ate o quadro para criar o habito de procurar qual e a próxima atividade.

         Inúmeras outras modificações e intervenções foram descritas com o objetivo de melhorar os sintomas do autismo. Todas elas, no entanto, demonstram melhor resultado quando iniciadas em crianças de baixa idade (menores que 5 anos). Por esse motivo é FUNDAMENTAL que o diagnóstico seja feito o mais rápido possível.

Dai a importância de estarmos sempre atentos e de lembrar que:

 

Autismo não é raro.

 

 

CARLA GRUBER GIKOVATE

 

 

BIBLIOGRAFIA

1.       American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental /Disorder, Fourth Edition. Washington, DC: APA,1994.

2.       KANNER, L.‑Autistic disturbances of affective contact. Nervous Child.2,217‑150,1943.

3.       MESIBOV, G.B.; ADAMS, L.W. & KLINGER, L.G. ‑ Autism: understanding the disorder. New York: Plenum Press, 1997.

4.       RAPIN, I. ‑ Autistic children: diagnosis and clinical features. Pediatrics, Supplemen, 751‑760, 1991.

5.       RAPIN, I. & KATZMAN, R.‑Neurobiology of autism. Annals of Neurology. 43, 7‑14, 1998.

 

 (Extraído de ARS CVRANDI,v.33 nº5-2000)

A importância do diagnóstico precoce

Dra. Carla Gikovate

Médica — Neurologista infantil — Mestre em Psicologia

Especialista em Educação Especial Inclusiva